27 outubro 2017
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Praia do Forte, Bahia, 27 de outubro.

No período da tarde, o Encontro Fraterno com Divaldo Franco ficou sob a responsabilidade do casal de psicoterapeutas Cláudio e Íris Sinoti. O herói e suas crises foi o tema abordado. Cláudio tem constatado que muitos de seus pacientes possuem sonhos de cunho catastrófico e perturbadores. Hoje, no planeta, a depressão alcançou níveis e pandemia, provocando suicídios. Isso significa que o herói interno que cada um possui encontra-se abandonado, sem esperança.

Levando à reflexões, indagou: – O que falta para te tornar herói? Qual o dragão interno que deve ser conquistado? Léon Tolstoi salienta que as questões que afligem o ser humano e que tem se repetido na vida merecem uma resposta, é necessário respondê-las. Rüdiger Dalke, falando sobre as crises da vida, esclarece que elas poderão se tornar um perigo ou uma oportunidade, dependerá de como elas serão trabalhadas.

 

 

Apoiando-se em Mateus, 10:38-39, Cláudio destacou que todo aquele que ama verdadeiramente o seu próximo, esquecendo-se de si mesmo, terá vida em abundância. Esse é o chamamento que o Cristo faz ao homem. Na recém-lançada obra de Joanna de Ângelis, com psicografia de Divaldo Franco, Em Busca da Iluminação Interior, em seu capítulo 2, a benfeitora destaque que: “O desafio para a transformação moral do indivíduo, a fim de tornar-se melhor, defronta nele mesmo a maior dificuldade, que é o hábito ancestral a que se encontra acostumado”.

O descobrimento de si passa pelo ensinamento de Jesus, registrado por Mateus em 7:3-5, identificando, cada qual, a trave que ainda possui sobre os próprios olhos, projetando nos outros as sombras de que é ainda possuidor. James Hollis destaca que as escolhas que se faz tornam-se o destino a que se almeja. É necessário saber distinguir o que é amor e o que é dependência, conforme se pode compreender no ensinamento do Cristo quando afirma ser necessário amá-lo em maior intensidade do que aos seus consanguíneos (Mt 10:37).

No livro Espelhos da alma: uma jornada terapêutica, de Íris Sinoti, encontra-se a seguinte reflexão: “Enquanto estivermos presos às “lealdades” infantis, não poderemos servir a um propósito maior.” Cada indivíduo deve buscar a sua própria identidade, conforme registrado em Mateus 10: 34-36. Voltando à James Hollis: “O herói tem que persistir diante do obstáculo que é a sua própria letargia, sem medo e sem desejo de voltar para casa.”

Íris Sinoti discorreu sobre a crise como grande oportunidade de crescimento íntimo, dizendo que ao descobrir as potencialidades de que se é possuidor, será necessário utilizá-las a próprio favor, pois que todo o potencial não utilizado a favor será utilizado contra. O autodescobrimento, o despertar de si, do herói interno, fará do indivíduo alguém melhor, canalizando suas potencialidades para o bem de todos.

Trabalhando o inimigo interno, Íris apresentou o registro realizado por Lucas 14: 12-14 e que fala sobre os convidados para o banquete, sendo desejável convidar aqueles que não podem retribuir. O que há dentro de ti, que deva ser convidado e não pode te retribuir? Essa é uma questão que deve merecer plena atenção, sob pena de estarmos alimentando somente os aspectos psicológicos que nos são simpáticos e que nos retribuem sempre, impedindo crescimento e mudanças íntimas, construindo o homem de bem.

O que está dentro de você que o incomoda, que dragão é esse? Na jornada heroica é necessário reconhecer a sua incompletude, a sua sombra. Conforme Carl Gustav Jung, quando se faz ao outro, faz-se ao Cristo. Ao descobrir o inimigo interno, amando-o, o indivíduo passa a amar-se. Há que se fazer uma escolha importante, ou seja, amar o Ego ou o Self, a Deus ou a riqueza.

Cada ser humano recebe uma tarefa que deve se desincumbir, ser melhor hoje do que ontem, e amanhã do que foi hoje. Alguns esquecem-se disso e passam a realizar outras tarefas que não os conduzirão ao aprimoramento moral e espiritual. Nesses relacionamentos humanos há um imperativo, perdoar, perdoando-se, também, reajustando-se com seus adversários, mesmo aqueles internos. Qual é o teu inimigo interno? Qual o dragão a ser conquistado dentro de ti?

“A sombra é problema moral que desafia a personalidade como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência dela sem esforço moral considerável. Tornar-se consciente da sombra implica reconhecer os aspectos obscuros da personalidade como existem na realidade.” (Carl Gustav Jung)

Amar-se é vincular-se com a vida. Amar é o maior mandamento da lei, conforme exarado em Mateus 22: 34-40. Conforme o Poeta Persa Rumi (1207-1273): “Tua tarefa não é buscar o amor, e sim buscar e encontrar dentro de ti as barreiras que tu mesmo construíste contra ele.” Cada indivíduo deve ser o protagonista de sua própria vida, escrevendo a própria história, tornando-se melhor para que a vida seja melhor, conforme ensina James Hollis. Assumir a sua própria responsabilidade conforme seja o seu jugo e o seu fardo.

É imperioso identificar o EU, o maior tesouro do indivíduo, conquistando a sabedoria, disponibilizando a luz que já fez brilhar em seu íntimo, colocando-a a serviço dos demais e da humanidade.

Aplaudidos calorosamente, o casal finalizou suas abordagens esclarecedoras, indicadoras de pontos a serem conquistados pelos que desejam se tornarem heróis ou heroínas, trilhando cada qual a sua jornada heroica.

O período noturno

As atividades noturnas do Encontro Fraterno com Divaldo Franco tiveram início com as maravilhosas apresentações musicais interpretadas pela brilhante Anatasha Meckenna, levando o público a lhe aplaudir de pé, reverente.

Para discorrer sobre Os Heróis Anônimos, Divaldo Franco, magistral em sua narrativa e tomado de profunda emoção, narrou três histórias ocorridas em Salvador/BA envolvendo uma mãe preta, uma mãe branca e outra, também preta, que lhe salvou a vida. Começa o inolvidável orador a dizer que era dezembro, a madrugada em curso e a natureza fazia festa. Estavam, ele e Tio Nilson no bairro do Uruguai, uma invasão pantanosa, atendendo os moribundos na Casa de Jesus, um barraco que acolhia aqueles que estavam deixando a vestimenta corporal, abandonados por todos.

Recebendo o chamado, dirigiram-se para o casebre de dois cômodos. O cenário era de angústia e de miséria humana. Sobre uma enxerga no chão do barraco encontrava-se uma trabalhadora do Centro Espírita Caminho da Redenção. Mulher dotada de grande pureza d´alma. Devotada ao bem, portadora de qualidades espirituais aplicava passes, embora se questionasse sobre essa condição, porque não se percebia em condições de oferecer aos Espíritos algo de si em favor do próximo. Heroína, lavava roupas e vendia acarajé na porta do Elevador Lacerda.

Agora, acometida de tuberculose pulmonar, moribunda, conta-lhe que está viajando para a outra vida, a espiritual. Seu tempo está se esgotando. Divaldo chorou, sendo consolado por ela. A amiga que aprendeu amar, ensinando-lhe o amor, estava deixando o veículo físico. Segreda a Divaldo a sua história, dizendo de antemão que seu filho iria lhe procurar mais tarde, após a sua morte, pedindo para dizer ao filho que sempre o amou.

Falou-lhe do filho, dedicado estudante desde criança, agora tornado médico famoso em Salvador. Narrou sua saga, desde jovem, os seus ingentes esforços em amealhar, com muito suor, os recursos para custear os estudos do filho amado. Os estratagemas para solicitar veladamente a ajuda dos professores do filho, facilitando-lhe um aprendizado profissional de qualidade. Esse filho, muito preto, foi fruto de uma relação em troca de alimentos. O filho era conhecido por um apelido muito peculiar. Porque o vestia sempre com roupas brancas, impecavelmente brancas, e contrastando com a sua pele negra, passou a ser conhecido por o mosca no leite.

A moribunda, febril, com tosse, falou-lhe sobre as alegrias em trabalhar e em economizar para adquirir belo vestido vermelho, sapatos para a formatura de seu amado filho, o anel de formatura acondicionado em caixa aveludada em azul. Foram três anos. Aproximava-se o dia da láurea. Na véspera, à noite, após já ter recolhido os pertences que lhe interessavam, dirigiu-se à mãe dizendo-lhe que tinha dois pedidos a fazer. Primeiro, que não necessitaria ir à cerimônia de formatura, sua noiva, filha do diretor da faculdade iria lhe acompanhar no ato solene. Mantendo serenidade, a mãe
compreensiva, agradeceu-lhe a dispensa.

O segundo pedido era uma condição, quando adoecesse, deveria ligar para o número de telefone que lhe passou em uma folha de papel, assim mandaria um colega para atendê-la, ali mesmo naquele barraco. Dizia que deseja lhe poupar de ser humilhada. Disse-lhe mais, que não telefonaria para ela.

Foi tudo muito simples, voltou a dizer a Divaldo aquela mãe heroína. Ele casou, não me avisou, mas estou feliz, disse. Meu filho está feliz e por ele estou feliz. Agora estou morrendo. A heroína saiu da vida para entrar na vida espiritual. Como uma fada iluminada saiu daquele corpo. Fulgurante, desapareceu no infinito. Ela havia expirado nos braços de Divaldo. Consumado, Nilson e Divaldo recolheram o cadáver, velando-o sob uma árvore. Em estando contaminado aquele barraco, os dois o consumiram com fogo.

Uma semana depois, no Centro Espírita Caminho da Redenção, Divaldo identificou aquele filho que lhe perguntou se havia visitado aquela negra no Bairro do Uruguai. Justificou a pergunta informando que tinha tomado a si a tarefa de protegê-la, era sua amiga. Desejava saber o que ela havia contado a Divaldo, se havia lhe falado sobre a família.

Respondendo, Divaldo disse que não poderia contar nada que pudesse interessar, indagando se ele era parente dela. Como disse que não, foi embora. Um mês depois, eis que o mosca no leite está de volta. Divaldo então pergunta: – É a respeito daquela negra? Confirmado, disse que desejava veementemente que lhe contasse o que sabia sobre ela e seus comentários. Após alguns momentos de titubeios, o visitante declara que era o filho dela. Tinha vergonha de sua mãe.

Agora identificado o filho, que Divaldo já conhecia, disse-lhe que ela havia pedido para dizer que o amava muito. Caindo em si, o médico perguntou como poderia se reabilitar. Divaldo, então, disse-lhe que há no interior de cada um herói, e que para a reabilitação são necessárias três etapas, o arrependimento, a expiação e a reparação. Assim, sintetizou o preclaro orador e orientador, faça para o próximo o que gostaria de fazer a sua mãe.

Compreendida a lição, o filho em reabilitação, solicitou a sua inclusão nas atividades de assistência desenvolvida por Divaldo Franco e sua Instituição no bairro do Uruguai. A mãe prestimosa, dúlcida e amorosa, presente no diálogo, suplicou, de joelhos, ao Mestre que recebesse a ovelha tresmalhada. A essa altura, o público parecia não respirar, tal era o silêncio e a emoção dominante no ambiente.

A segunda heroína é a história de uma alemã, residente em Salvador. É a mãe branca. Tudo começou quando Divaldo, em seu momento de folga no trabalho, e estando na rua, viu cair na sua frente um homem, amparando-o e conduzindo-o em um táxi ao hospital mais próximo. Lá chegando, deparou-se com os entraves burocráticos e a pouca atenção por parte dos funcionários. O tempo transcorria e o socorro não era prestado, aflito, Divaldo insistia na necessidade de atender o enfermo.

Alguém entrou e todo o panorama mudou. Todos começaram a fazer algo. Divaldo se dirigiu a ele solicitando o atendimento ao seu socorrido. Imediatamente, à um sinal, todos se mobilizaram em auxilio socorrista. Era o diretor do hospital. Instado ao gabinete do diretor, ao entrar Divaldo divisou um quadro que estampava bela senhora ali retratada. Admirou-o. O diretor então informou tratar-se do retrato de sua mãe, alemã de origem, passando a narrar a história de superação daquela mulher que o filho classificava como uma mulher incomparável.

Em situação difícil no Brasil, sem saber falar o idioma português e sem o marido, foi para o Dique do Tororó lavar roupas com as outras lavadeiras. Era especial, destacava-se por ser branca, falava com as demais e não era compreendida, tanto quanto falavam com ela e não compreendia, todas riam. Era a única branca no meio das negras. Assim foi a vida dessa heroína cuidando de seu amado filho, que agora concluía o curso de medicina. Um dia surpreendeu-se com o estado de saúde de sua mãe. Ela havia dissimulado muito bem o quadro infeccioso que apresentava. Tinha contraído a
tuberculose. Estava na fase terminal. Três dias antes da sua formatura ela morreu. Decidiu, então, a ser tisiologista, o melhor de todos, em homenagem à essa mulher notável que foi a sua mãe. Como especialista, esse profissional salvou incontáveis vidas no Brasil e no Exterior.

Essas são as histórias da mãe negra e da mãe branca. Divaldo conta essas histórias para homenagear outra mãe negra, extraordinária mulher. Contou Divaldo que em 1946, estando em profunda solidão e melancolia, e por já haver tentado o suicídio antes, pensava, arquitetava novo tentame. Em sentido contrário, ouvia uma doce voz pedindo-lhe paciência. Embarcando em um bonde, o de nº 2, Largo de Roma, encontrou uma negra que lhe chamou para uma conversa, convidando-o para um café. Foram até a modesta casa, no Bomfim, onde ela morava. Ali, enquanto prepara o café, ralo, ela lhe disse: -Sinhozinho não pode morrer agora. A estrela que o conduz pediu-me para lhe chamar, para tomar um café. Os Espíritos dizem que o sinhozinho terá uma vida longa.

Afeiçoando-se, aceitou o convite para cafés diários, visitando sistematicamente o anjo negro de sua vida. A solidão deixou de pesar tanto. Decorridos três meses, ela lhe confidenciou que estava saindo da vida, que voltaria ao mundo dos Espíritos. Emocionado, Divaldo se pergunta, sempre que um afeto morre: – Por que os que eu amo morrem? Suas lágrimas são contidas a esforço. Seus anjos amigos e protetores o assistem nessas horas de inolvidáveis emoções.

Ao contar as histórias dessas heroínas, Divaldo destacou que várias outras heroínas e heróis desencarnados estavam presentes entre o público. Muitas mães, pais, esposas e maridos. Com essas palavras temperadas de emoção, deixou a mensagem do amor ao próximo, doando-se até que os sentimentos se entorpeçam pelo amor.

Aproveitando o momento de enlevo e vibrações de alto padrão e as emoções afloradas, Divaldo Franco conduziu os presentes em uma visualização dirigida, mergulhando no mundo transcendental, onde o oxigênio é o amor. Como prece final, proferiu o Pai Nosso.

Terminado o evento, todos sentindo fortes emoções, transpareciam serenidade, esperança, deleitando-se naqueles momentos mágicos conduzidos pelas mãos hábeis de Divaldo Franco. O silêncio dominava o ambiente. Todos, como se estivessem hebetados, permaneciam sentados, meditativos, introspectivos, bebendo nas fontes celestes que se derramaram sobre os presentes. Dizer-te obrigado é muito pouco, Divaldo! Nos resta orar ao alto para que possas triunfar em alegria e felicidade.

Texto: Paulo Salerno
Fotos: Jorge Moehlecke

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