13 fevereiro 2018
13 fevereiro 2018, Comentários 0

Derradeiro dia do 34º Congresso Espírita do Estado de Goiás. Os quase 3300 participantes buscam acomodar-se para a Conferência de encerramento a ser conduzida por Divaldo Franco e cujo tema é: A Gênese – Filosofia, Ciência e Religião – Em Busca de Deus.

 

 

 

Divaldo dá início a conferência narrando a história de humilde lenhador que após beneficiar um homem santo e sábio que necessitava de amparo e abrigo. Como gratidão o beneficiado deu ao lenhador um conselho:

— Homem, penetra na floresta.
O lenhador aceitou o conselho e adentrou-se ä floresta e descobriu um mundo de riquezas naturais que o transformou em um multimilionário empresário.
O tempo transcorreu e já avançado na idade, o agora milionário, deu-se conta de que a vida farta materialmente, era, contudo, um enorme vazio existencial.

Amargurado, pôs-se a refletir sobre sua vida e pareceu-lhe ouvir no recôndito da alma a voz do sábio que lhe dizia:
— Homem, penetra na floresta.

O ex-lenhador silenciou sua voz e mente e mergulhou profundamente em seu mundo íntimo onde pode finalmente encontrar a paz que tanto almejara a vida toda, pois dera-se conta de que doravante jamais seria atingido pelas ocorrências exteriores.
Finalmente percebera que o mais importante da vida e conhecer-se a si mesmo.

Divaldo silencia por um breve tempo para a seguir citar o filósofo latino Cícero: “A História é a pedra de toque que desgasta o erro e faz brilhar a verdade” e 16 séculos mais tarde com base nas palavras de Cícero, Francis Bacon o filósofo inglês observou que uma filosofia superficial inclina a mente do homem para o materialismo, mas uma filosofia profunda conduz as mentes humanas para a religiosidade.
Esse encontro é definido por Jung como individuação onde o eixo ego integrado ao self permitindo uma integração com o arquétipo inicial: o velho/a velha ou ainda o sábio/ a sábia.

Porém, para lograrmos esse nível de consciência não podemos permanecer estagnado e buscarmos o real sentido da vida.
Em seguida Divaldo aborda a filosofia da Grécia e detalha o pensamento e definições das diversas escolas filosóficas sobre o sentido da vida:
Epicuro afirmava – pelo pensamento Epicurista ou hedonista – que o propósito da vida pode ser alcançado com o TER coisas e prazer. Porém, junto com o verbo TER está atrelado o verbo PERDER.

Mais tarde surgiu Diógenes do pensamento Cínico que afirmou que a o sentido existencial se obtém em NADA TER. Desdenhando os bens transitórios passou a habitar um tonel. Desconsiderou, em Corinto, o convite que lhe fora feito por Alexandre Magno, desprezando a honra de governar o mundo ao seu lado e admoestando-o por tomar-lhe o que chamava “o meu sol”. Diógenes constatou, porém mais tarde, que o nada ter acabava por gerar a escravidão pelo desejo de ter.

No século XX, marcado pelas 2 grandes guerras que ceifaram mais de 100 milhões de vida torna-se um campo fértil para as filosofias pessimistas e maaterialistas cujo expoente é Jean Paul Satre (1905-1980) para o qual Deus não existe e, portanto, não há, também, a natureza humana, posto que não há Deus para concebê-la e assim a única natureza do ser humano é a biológica, ou seja, a sobrevivência. Não existindo Deus não existem igualmente “prontos” valores ou leis morais que possam nortear o ser. Estamos sós e sem necessidade de justificativas para os nossos atos e comportamentos.

Emoldurando esse pensamento Divaldo narra a história de Meursault, personagem do livro O Estrangeiro de Albert Camus – auto proclamado discípulo de Satre – que retrata bem o comportamento existencialista a e a frieza com que age diante das situações.
Essas doutrinas, pensamentos e filosofias – embora respeitáveis – representam a ideia de criaturas humanas – por definição imperfeitos e parciais.

A Doutrina dos Espíritos por sua vez desvela um manancial quase que inesgotável de conhecimento, com o propósito de elevar a criatura humana fornecendo-lhe a oportunidade de identificar o sentido existencial, reiterando os ensinamentos do Cristo submetidos com os conhecimentos transcendentes da imortalidade da alma, das vidas sucessivas e da caridade.

Abençoada Doutrina que nos responde questões fundamentais e tão antigas quanta a Humanidade: Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Por que sofremos?

Doutrina que ensinam com irretocável lógica as leis morais da vida que estabelecem que temos direitos, mas também temos deveres e as consequências morais de nossos atos.

Lamentavelmente a Ciência desdenha e despreza essas considerações e até mesmo evitam pesquisar receosos de serem discriminados pela inteligência acadêmica arrogante e presunçosa.

Entre as exceções, Divaldo cita o célebre investigador, pesquisador e vencedor do Prêmio Nobre de Medicina Charles Robert Richet (1850-1935) médico fisiologista francês que após extensas pesquisas e experiências juntos de médiuns e cujos resultados estão descritos em todos os seus detalhes em o livro “O Tratado da Metapsíquica” mas o eminente pesquisador francês escreveu o livro filosófico-romântico “A Grande Esperança” a respeito de suas vivências contendo não somente os dados frios das pesquisas, mas o conteúdo da alma de quem observou e comprovou a existência da vida após a morte do corpo físico. Richet inicia o livro questionando: Por que existes? Por quem? Para quê? Por quê a vida te impôs a vida? E após todas as suas considerações conclui na segunda parte do livro que dá o nome ao livro: “Aquilo que nós pensamos é verdade: a imortalidade da alma é uma verdade indubitável”.

O Espiritismo vem convidar-nos ao autoconhecimento o meio mais eficaz para conquistarmos a felicidade na Terra, conforme exarado na resposta à questão 919 de O Livro dos Espíritos: Qual o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal? “Um sábio da antiguidade vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo”. Não é TER, mas SER mediante o conhecimento de si próprio como ocorreu com o lenhador da narrativa pela qual Divaldo iniciou a conferência.

Proposta que antecipa em quase um século o pensamento de Carl Gustav Jung sobre a individuação (autodescobrimento).
Mas Allan Kardec para trazer à luz essa Doutrina libertadora é obrigado a enfrentar todos os obstáculos existentes entre os acadêmicos e a elite da inteligência francesa o Iluminismo movimento cultural no século XVIII que procurou mobilizar o poder da razão, a fim de reformar a sociedade e o conhecimento herdado da era medieval.

O epicentro do iluminismo deu-se na França resultando na publicação da grande Encyclopédie editada por Denis Diderot com as contribuições de inúmeros intelectuais como Voltaire e Montesquieu.
A humanidade oprimida, até então, pela intolerância religiosa e privilégios aos nobres e ao clero ansiava por se libertar desses jugos.
A partir desses ideais e a par com uma severa crise o povo revoltou-se e em 14 de julho de 1.789 com a queda da Bastilha teve início a Revolução Francesa.

Divaldo, dando continuidade ao prólogo de sua mensagem principal vai buscar um personagem símbolo desses dias: Pierre Gaspard Chaumette (1763 –1794) político Frances e pertencente ao grupo dos ultras radicais fanáticos no período da Revolução Francesa e que considerava ser a religião uma relíquia das superstições da era medieval e não mais correspondendo às conquistas intelectuais obtidas com o Iluminismo.
Chaumette considerava a Igreja e os inimigos da Revolução Francesa como sendo a mesma coisa e apoiado em seu fanatismo iniciou o movimento de descristianização do povo Frances.
A campanha de descristianização é uma extensão da filosofia materialista, mas também mesclada de ressentimento e revanchismo contra a Igreja e o Clero, com o confisco dos bens da Igreja, o calendário Gregoriano sendo substituído pelo Calendário Republicano Frances com a abolição dos dias santos.

O auge da campanha de descristianização ocorreu na Catedral de Notre Dame de Paris no dia 10 de novembro de 1.793 quando se deu a destruição do altar da catedral e a entronização da deusa Razão (representada pela atriz Mademoiselle Candeille) em substituição a Deus. A partir de então nesta data passou-se a comemorar o Festival da Razão.

Esse é o clima que imperava quando surgiu a Codificação fato que não foi capaz de desmotivar o insigne Allan Kardec que enfrentou a dificuldade dedicando suas energias para publicar A Gênese – a mãe das obras espíritas – coroando e caracterizando assim a tríplice abrangência do Espiritismo: Filosofia, Ciência e Religião.

Texto: Djair de Souza Ribeiro – Fotos: Sandra Patrocínio

Comments are closed.