29 maio 2016
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DIVALDO FRANCO NA EUROPA – 2016

Bad Honnef, 28 e 29 de maio de 2016

Nos dias 28 e 29 de maio, o médium e orador espírita Divaldo Franco realizou um seminário na cidade de Bad Honnef, Alemanha, com o tema “A Felicidade É Possível”, encerrando, assim, a temporada de 30 dias de divulgação do Espiritismo na Europa, alcançando 9 países e 13 cidades.

O evento, promovido pela Freundeskreis Allan Kardec Düsseldorf, foi realizado no auditório do Hotel Seminaris Bad Honnef e contou com a participação de mais de 280 pessoas em cada dia. Todo o seminário foi traduzido ao alemão pela intérprete Edith Burkhard.

Dezoito países estavam ali representados, a dar-nos uma pequena dimensão do alcance mundial do Espiritismo: Brasil, França, Bélgica, Canadá, Luxemburgo, Suíça, Suécia, Alemanha, Japão, Itália, Holanda, Espanha, Portugal, Reino Unido, Áustria, Polônia, Estados Unidos, Emirados Árabes (Dubai).

As apresentações musicais, que encantaram o público, ficaram por conta de Flávio Benedito (piano), Maurício Virgens (canto), Warren Richardson (canto) e Amina Richardson (canto).

Marina Steagall apresentou a campanha mundial “Life! Say Yes To!”, que aborda os meios de valorização da vida e os equívocos e prejuízos do abortamento, da eutanásia, da pena de morte e do suicídio.

 

No sábado, o encontro foi iniciado com a evocação do pensamento do filósofo grego Protágoras, do século V a.C., que afirmara que “o ser humano é a medida de todas as coisas”. Com isso, ele colocava o homem no centro do processo cognitivo, dividido, então, em uma parte objetiva e outra subjetiva. Segundo esse filósofo, veríamos a realidade sobretudo de acordo com o nosso estado emocional. Em complementação a esse pensamento, foi abordada a proposta de Immanuel Kant, filósofo alemão iluminista, que defendia que a realidade só seria percebida pelo ser humano a partir de suas experiências objetivas prévias, que seriam quais formas que moldariam o conteúdo da realidade apreendido. Segundo asseverado, haveria dois fatores essenciais e determinantes do processo de conhecimento: o ego e o Self, que seriam o resultado de nossas conquistas emocionais, sociológicas e intelectuais.

Nesse breve introito, já teríamos o embasamento para o tema do seminário: a realidade apresenta-se a todos tal qual é e cada um apreende a parte dela que lhe é possível, interpretando-a segundo a sua própria emoção e as experiências acumuladas. Ser feliz ou infeliz, portanto, dependeria fundamentalmente do próprio indivíduo e não de circunstâncias ou fatores externos. O que constituiria a felicidade para um, não necessariamente seria a felicidade para outro. E aquilo que seria interpretado como felicidade por certa pessoa, num determinado momento de sua vida, talvez, num período posterior da existência, fosse sentido como infelicidade. Daí a necessidade, conforme exposto, de o indivíduo realizar o autodescobrimento.

Com fundamento na Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, foi dito que a verdadeira vida estaria dentro do ser humano, de maneira a ser indispensável a viagem interior para o encontro com a realidade profunda do si, identificando-se os arquétipos, essas marcas antigas de nossas existências pretéritas, para a superação dos conflitos e más tendências e a reconexão com o Self.

No processo evolutivo antropossociopsicológico e espiritual, o ser humano caminharia do instinto para a razão, desta para a intuição e, por fim, para a angelitude, quando, vencido o ego e seus derivativos (egoísmo, egotismo, egolatria, egocentrismo), desfrutaria a plenitude do Self, na vivência do altruísmo, do amor ao próximo e a si mesmo, da caridade, enfim.

Como recurso auxiliar para a análise da problemática do ego e sua relação com a origem dos sofrimentos, assim como da necessidade de a criatura humana alterar a sua conduta moral para melhor, como forma de libertar-se das dores que a afligem e ser feliz, Divaldo propôs um estudo espírita e junguiano da obra “O Cavaleiro da Armadura Enferrujada”, de autoria de Robert Fisher.

Para que fosse possível realizar essa viagem de estudo sobre o autodescobrimento e a autoiluminação mais facilmente, foram abordados os conceitos de ser humano, nos seus aspectos biológico, psicológico e social, assim como a visão espírita dele, que o apresenta como ser tríplice (corpo físico, perispírito e Espírito), demonstrando-se que somos, em essência, uma energia pensante que sobrevive ao decesso físico e realiza o seu processo evolutivo por meio das reencarnações. Também foram apresentados alguns conceitos da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, tais como o consciente, o inconsciente coletivo e o individual, os arquétipos, o ego, o Self, a sombra.

Em seguida, o orador passou à análise específica da estória contida no livro referido. Tratava-se de um cavaleiro que, ao longo de muitos anos, habituou-se a manter-se vestido com sua armadura de ferro, a qual acabou por se enferrujar. Ele era casado e tinha um filho, mas o seu relacionamento com a família era muito distante e difícil. Após uma discussão com a esposa, aborrecido, decidiu o cavaleiro afastar-se do domicílio e realizar uma viagem. Nesta viagem, ele passou a ter contato com alguns outros personagens, com os quais se relacionou e que o ajudaram a refletir sobre a própria existência. Por fim, o cavaleiro considerou que deveria retirar a armadura, o que não conseguiu de imediato, uma vez que ela já se encontrava muito enferrujada. Um dos personagens disse-lhe que seria necessário atravessar uma determinada trilha, onde encontraria três castelos: o do silêncio, o do conhecimento e o da vontade e ousadia. Ser-lhe-ia necessário permanecer um certo tempo em cada um deles, para se lhes aprender as lições, a fim de que ele pudesse seguir para o seguinte. Nesse processo, passando por cada castelo, o cavaleiro foi introjetando os diferentes ensinamentos, refletindo sobre a própria vida, conhecendo mais de si mesmo, ao tempo em que ele passou a mudar de pensamentos, de comportamentos, e , com isso, a armadura, de parte em parte, começou a cair de seu corpo, até que ele viu-se totalmente liberado dela.

Divaldo esclareceu que a viagem do cavaleiro pela trilha, visitando cada um daqueles castelos, é bem a viagem de autodescobrimento e de autoiluminação de todos nós, que trazemos as nossas máscaras, as personas a que se referia Carl Gustav Jung. Ao longo de nossa jornada evolutiva, criamos em nós condicionamentos negativos, que tornaram-se uma segunda natureza em nós, passamos a usar máscaras que compõem a nossa personalidade, que utilizamos para agradar as convenções sociais. E assim, perdemos o contato com o nosso ser profundo, a nossa realidade espiritual (Self). Esses condicionamentos negativos, as nossas más inclinações, seriam a causa de nossos sofrimentos.

Conforme afirmou o orador, é necessário que façamos a viagem interior, em busca do conhecimento da Verdade, dessas leis divinas que estão escritas em nós, para que tomemos consciência de que somos Espíritos imortais e de que a nossa meta psicológica profunda deve ser amar, vencendo os nossos medos e dúvidas, eliminando as nossas imperfeições morais e estabelecendo-se, assim, a conexão entre o ego e o Self.

Em análise do Decálogo Logoterapêutico da Dra. Elisabeth Lukas, foram destacados os itens a prescrever a necessidade de reservarmos um momento para nós mesmos, de ouvirmos a nossa consciência e de dedicarmos tempo para a nossa transcendência, confirmando o estudo sobre o cavaleiro da armadura enferrujada.

Para exemplificar a proposta de libertação do ego e vivência do altruísmo como forma de encontrar-se a felicidade, Divaldo narrou uma comovente história de uma das mais aclamadas contraltos de todos os tempos, Madame Ernestine Schumann-Heink, nascida austríaca e mais tarde naturalizada americana. Madame assistira a um concerto de música nos EUA, no qual apresentaram-se várias crianças. Uma delas, de nome Elizabeth, contava apenas 5 anos e teve um péssimo desempenho. Após sair do palco, correu para os bastidores para chorar, prometendo a si mesma nunca mais tocar violino. Madame foi vê-la e por perceber nela o talento, pediu-lhe que acompanhasse-a em sua turnê. Em determinado dia, num passeio por um bosque, a Sra. Schumann-Heink mostrou à Elizabeth uma calhandra e contou-lhe a lenda sobre aquele pássaro que tão belamente cantava. A estória dizia que, após criar o mundo e o ser humano, Deus percebeu que tudo era alegria na criação, com exceção do homem, que, infeliz, de tudo queixava-se. Decidiu oferecer algo que lhe alegrasse os dias. Tomou de uma porção de barro e foi modelando até que, de repente, deu-se conta que modelara uma pequena ave. Abriu-lhe o bico e insuflara-lhe a vida, dizendo-lhe: “tu serás a calhandra e cantarás para que nunca mais o ser humano seja triste”. E, a partir daquele dia, o canto dela tomara o mundo e nunca mais houvera a infelicidade. Madame concluiu o diálogo dizendo: “compreende Elizabeth? Todos somos calhandras de Deus; para mim Ele disse ‘vai e canta’, para você Ele disse: ‘vai e toca’, para outro Ele disse ‘vai e ensina’. Todos temos algo a oferecer ao mundo para ele não seja tomado de tristeza e as pessoas possam ser felizes”.

A pequenina menina nunca mais desistiu de tocar. Muitos anos mais tarde, Madame tivera grande decepção, pois que sua voz por fim falhara num concerto. Pensara em encerrar naquela noite a sua carreira. Mas Elizabeth, agora renomada violinista, estava na plateia e foi ter com a grande contralto no seu camarim. Recordou-a da lenda da calhandra e disse-lhe que não se importasse com a falha da voz ocorrida naquela noite, pois que a sua missão deveria seguir adiante, lenindo a tristeza do mundo com a sua arte. A partir daquele dia, Madame trocou os grandes palcos e seletas plateias para cantar para os infelizes e sofredores da Terra. E, com essa inspiradora mensagem, Divaldo conclamou a todos para que nunca esqueçamo-nos de que somos calhandras de Deus, com talentos os mais diversos, que devem ser postos a serviço de Jesus, para oferecer um pouco de beleza e de alegria ao mundo tão sofrido, porque a verdadeira felicidade não consiste em reter nada para si, mas em distribuir os talentos para a felicidade de todos.

Na fase final dos estudos do primeiro dia de seminário, o médium fez uma análise do conceito de felicidade e de como fruí-la, de acordo com a filosofia Oriental, que baseava-se na revelação espiritual, e com a Filosofia Ocidental, desde o período pré-socrático, a proposta de Sócrates e os filósofos pós-socráticos. Com maior enfoque na mensagem socrática, afirmou que somente pelo autoconhecimento é que o ser humano poderia encontrar a felicidade. Essa proposição estaria contida também na resposta dada pelos Espíritos nobres à questão 919, elaborada por Allan Kardec e inserta na obra O Livro dos Espíritos, a versar sobre o método prático e eficaz para se melhorar nesta vida e resistir à atração do mal.

Referindo-se aos transtornos depressivos, que na atualidade encontram-se entre uma das 3 principais causas de mortes no mundo, Divaldo esclareceu que na raiz de toda depressão há um conflito de culpa, sendo, portanto, necessário que o indivíduo realize a terapia do autoamor, autoperdoando-se e permitindo-se ser feliz, fruir da felicidade possível na Terra, que nunca é linear e constante, mas com as oscilações naturais dos desafios da existência, das dores, dos infortúnios, que fazem parte da experiência evolutiva. A felicidade, então, seria o equilíbrio ou, ainda, a harmonia físico-psíquico-emocional do ser, mantida ante qualquer situação, mesmo ante as contrariedades da existência.

No dia 29, domingo, Divaldo iniciou a análise sobre a felicidade recordando que, segundo a Doutrina Espírita, a educação dos caracteres humanos – portanto, não apenas aquela de natureza formal, ou instrução-, seria fundamental para a sua conquista, pois que implicaria autoconhecimento e superação das más inclinações (ego), com a dedicação do amor ao próximo. Servir ao semelhante seria o caminho para a felicidade.

Na sequência, abordou a obra literária “A Ciência de Ser Feliz”, de autoria da Dra. Susan Andrews, psicóloga e antropóloga americana, formada pela Universidade de Harvard, que afirmara em seu livro que a felicidade seria a combinação entre o grau e a frequência de emoções positivas; o nível médio de satisfação que a pessoa obtém durante um longo período; e a ausência de sentimentos negativos, tais como tristeza e raiva. Para ela, a felicidade não seria apenas caracterizada como a falta de emoções negativas, mas também como a presença de sentimentos positivos. Foram analisadas as 6 grandes ilusões a respeito da felicidade: dinheiro, boa educação, juventude/beleza, sucesso, saúde, prazer. Tais elementos não seriam sinônimo de felicidade, vez que grande parte de seus portadores não seriam realmente felizes.

Mas, então, como seria possível alcançar a felicidade? Para essa resposta, foi apresentado o conteúdo da obra “A Arte de Viver”, do filósofo grego estoico Epicteto, para quem uma vida feliz e uma vida virtuosa seriam sinônimos. O ser humano deveria buscar realizar apenas atitudes corretas em sua existência, evitando cogitar do sofrimento, dando o melhor de si, sendo sempre bom e esculpindo a beleza em sua vida, a fim de que pudesse ser efetivamente feliz.

Em uma abordagem comparativa com o Espiritismo, foi recordado que na questão de número 614 de “O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec recebeu como esclarecimento das entidades superiores que a lei natural ou divina “é a única verdadeira para a felicidade do homem”, indicando-lhe o que deve fazer ou deixar de fazer e que ele só é infeliz quando dela se afasta.

Na fase final do seminário, Divaldo discorreu sobre o ressurgimento do materialismo no século XVII, com o pensamento de filósofos como Pierre Gassendi, John Locke, Francis Bacon, e, também com as teorias dos pensadores iluministas, não tardando, no entanto – como explicou-, a resposta do mundo espiritual, que preparou a França, por meio do esforço de Napoleão Bonaparte, para receber a Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec e que se caracterizaria como uma ciência a estudar a origem, a natureza e o destino dos Espíritos e as relações existentes entre o mundo físico e o espiritual. Marchando ao lado da Ciência acadêmica, mas não se detendo no mero estudo dos efeitos e, sim, remontando às causas, o Espiritismo demonstraria a existência de Deus, a imortalidade da alma, a comunicabilidade dos Espíritos, a reencarnação, a pluralidade de mundos habitados, e tomaria por base moral da conduta humana e proposta psicoterapêutica a mensagem do Evangelho de Jesus.

Conforme asseverou o médium, o Espiritismo é uma doutrina de fatos, com fundamento na Ciência- como a Biologia Molecular, a Física Quântica, a Parapsicologia, as Neurociências, a Psicologia Transpessoal, a Psiquiatria e outras áreas-, a demonstrar a nossa realidade profunda, o ser espiritual que somos, o Self, que aguarda ser descoberto, para que expanda-se na direção do próximo, encontrando, enfim, a felicidade de servir.

Texto: Júlio Zacarchenco
Fotos: Lucas Milagre e José Manuel

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