21 novembro 2015
21 novembro 2015, Comentários 0

O médium e orador espírita Divaldo Pereira Franco esteve nesta sexta-feira, 20/11, em Ribeirão Preto, onde realizou um seminário para 1250 pessoas, no Centro de Convenções da cidade.

A proposta do seminário foi o encontro com a paz.

O pensamento filosófico de Cícero abriu a exposição do tema: “a História é a pedra de toque que desgasta o erro e faz brilhar a verdade.”

Com base nisso, foi ressaltada a necessidade de observarmos e reflexionarmos a respeito dos fatos históricos, a fim de melhor compreendermos a realidade, na busca da verdade.

O século XVII, como afirmado, foi o período em que houve a ruptura entre a Ciência e a religião. Thomas Hobbes, Pierre Gassendi e John Locke, eminentes representantes do pensamento do seu século, romperam com a religião e resgataram o atomismo grego, que, antes, já era a teoria adotada por Leucipo, Lucrécio e Demócrito, os quais discrepavam frontalmente do idealismo socrático.

 

Curiosamente, o filósofo Francis Bacon, também do século XVII, escreveu que “uma filosofia superficial inclina a mente do homem para o ateísmo, mas uma filosofia profunda conduz as mentes humanas para a religião.” E Johannes Kepler, astrônomo e matemático, apresentou as grandes leis universais que falavam a respeito de uma causalidade inteligente.

No século XVIII, surgiu o Iluminismo francês. E o ateísmo grego, recuperado no século XVII, perdurou até o XIX, para atingirmos o século presente, XXI, nas experiências e vivências do “homo virtualis”.

Ao longo dessa jornada do desenvolvimento intelecto-moral, o ser humano sempre buscou a felicidade, fracassando nesse intento, na maioria das vezes. E assim sucede-se até os nossos dias.

Os pensadores estabeleceram que havia 4 hipóteses para a conquista da felicidade: o “ter” coisas, o “não ter” nenhuma posse, a entrega à apatia, conforme apregoada pela doutrina estoica, e o “ser”, ou seja, o desenvolvimento das qualidades internas, sendo esta última a única capaz de nos garantir o equilíbrio, a harmonia, a felicidade e a paz interior.

Divaldo discorreu sobre o desenvolvimento antropossociopsicológico da criatura humana, conforme a doutrina de John B. Watson, psicólogo americano, que afirmou que as primeiras emoções que surgiram nos indivíduos, nesta ordem, foram: o medo, a ira e, por último, o amor.

Sendo o amor relativamente recente em nossas experiências humanas, seria natural concluir que ainda estejamos iniciando o aprendizado e a educação dessa emoção.

Também foi referida a tese de Gurdjieff e de seu discípulo Pedro Ouspensky, que estabeleceram que as pessoas poderiam ser divididas em dois grupos, o dos seres fisiológicos, que satisfazem-se integralmente nos instintos básicos da alimentação, do repouso e do sexo, e o dos seres que, além de experimentarem esses instintos, pensam e possuem um ideal.

Viktor Frankl e Carl Gustav Jung, ambos psiquiatras, ensinaram que todos devemos encontrar e vivenciar um sentido existencial profundo, a fim de evitarmos nos tornar um peso morto na economia social. A ausência de um sentido nobilitante em nossa vida levar-nos-ia ao estado de vazio existencial e, por consequência, a problemas depressivos, bipolares e ao próprio suicídio.

Segundo mencionado, o sentido existencial profundo pregado pelo Espiritismo é a imortalidade. Isso porque, a partir da demonstração, pela Ciência Espírita,  de que somos todos imortais, essa verdade faz-nos pensar a respeito de como é essa realidade transcendente e quais são suas condições de vida.

Com base na lei de ação e reação, explicou Divaldo, colheremos no além exatamente os frutos de nossa semeadura na Terra. Destarte, não deveríamos nunca descuidar de nossa conduta durante o período reencarnatório. Levaremos do mundo físico os tesouros de paz  (o céu), adquiridos pelo pensamento e conduta retos, ou os tormentos de consciência (inferno), resultados de nossas iniquidades e desequilíbrios.

Não por outra razão, disse o orador, foi estabelecido por Allan Kardec, codificador do Espiritismo, que o verdadeiro espírita ou o verdadeiro cristão pode ser reconhecido por sua transformação moral e pelos esforços que empreende para não ser arrastado por suas más inclinações. Esse indivíduo, naturalmente, já compreendeu a realidade e estabeleceu para si a meta da imortalidade gloriosa e rica de paz.

Foi narrada a história de Creso, o último rei da Lídia, com base nos relatos do historiador grego Heródoto de Halicarnasso. Tratava-se de uma análise, sob o ponto de vista da paz e da felicidade, sobre um dos homens mais ricos do mundo. Ele tinha dois filhos. O mais novo era surdo-mudo. O mais velho desencarnou em trágico acidente. Creso, certa feita, houvera convidado Sólon, um dos 7 sábios da Grécia Antiga, para visitá-lo e conhecer sua fortuna. Ao indagar o filósofo sobre quem seria a pessoa mais feliz do mundo, dele recebeu a resposta de que era um jovem ateniense que dedicava-se a um nobre ideal. Ao indagá-lo sobre quem, então, seria o segundo, obteve a resposta de que seriam 2 jovens irmãos que se ocupavam de fazer o bem ao próximo. Contrariado em sua expectativa, porque estava certo de que seria considerado por Sólon o mais feliz, em virtude de seu poder e imensa fortuna, decidiu desprezá-lo e mandá-lo embora. Mas ao despedir-se, Sólon lhe teria tido que somente seria possível saber se alguém foi realmente feliz na existência após a sua morte, porque durante a vida física, sempre surgiam inúmeras ocorrências inesperadas e imprevisíveis, que acabavam por macular a paz e a  felicidade do indivíduo. Mais tarde, o reinado de Creso teve de enfrentar o exército de Ciro, em dura batalha, que foi vencida pelo segundo. Num intrigante episódio dessa história, quando um soldado persa estava pronto para arremessar a lança contra Creso, o seu filho surdo-mudo entrou numa espécie de transe, pela comoção, e gritou, assustando o soldado, que errou o alvo, salvando, assim a vida do pai. Creso, entretanto,  foi preso pelos persas e quando estava para ser exterminado, recordou-se da conversa com Sólon e de sua reflexão a respeito da felicidade, a qual repetiu em voz alta. Ciro, que estava próximo e ouviu Creso pronunciar o nome de Sólon, indagou de que se tratava. Sendo profundo admirador daquele filósofo e, agora, sabendo da sua vinculação com Creso, decidiu poupar-lhe a existência física, para que Creso pudesse trabalhar para ele.

Esse relato histórico demonstrou que, ante as vicissitudes da experiência física, é necessário que os nossos valores estejam depositados naquilo que é imperecível, imortal, portanto, não atingível pelas ocorrências materiais. A conquista da verdadeira paz, portanto, só seria possível por meio de atos decorrentes de uma consciência reta e de um caráter reto, de maneira que o indivíduo possa agir de tal forma que nunca se envergonhe de seu passado.

Divaldo asseverou que Jesus foi o único personagem da História que estabeleceu o Amor como diretriz de segurança para o encontro com a paz. Ao anunciar “a minha paz vos dou e vo-la dou como o mundo não a pode dar”, Jesus estabeleceu a paz como fruto do Amor transcendente, sem exigências, sem condições.

Foram analisados pelo palestrante os seis itens que compõem o Manifesto 2000 Por Uma Cultura de Paz e de Não-Violência, estabelecido pela UNESCO e dirigido não aos governantes das nações mas a todos os cidadãos do planeta, que deveriam assumir, individualmente, tais compromissos: 1.) preservar a paz e respeitar a vida; 2.) rejeitar a violência; 3.) ser generoso; 4.) ouvir para compreender; 5.) preservar a natureza; 6.) redescobrir a solidariedade.

A história de uma jovem armena que viveu os horrores do genocídio de seu povo praticado pelos turcos otomanos, contida na obra “Perdão Radical”, de autoria de Brian Zahnd, foi utilizada para as reflexões acerca do perdão como forma de encontro com a paz. Essa jovem viu seus pais serem assassinados friamente e sua irmã estuprada e também assassinada pelos turcos. Ela foi aprisionada pelo comandante da tropa que invadiu seu vilarejo e tornada sua escrava sexual. Após ter conseguido fugir de sua prisão, logrou estudar e tornar-se enfermeira, profissão na qual destacou-se, por sua extrema dedicação aos pacientes. Certo dia, foi convidada a cuidar de um doente, considerado em estado crítico. Ao visitar o paciente, de imediato reconheceu o seu antigo algoz. Mesmo assim, cuidou dele com esmero, até a sua total recuperação, sem nunca o acusar de nada. Quando ele descobriu que sua enfermeira era a mesma pessoa a quem tinha escravizado sexualmente e assassinado sua família, perguntou-lhe o porquê de o ter cuidado e não o assassinado. Ela respondeu-lhe que tinha tornado-se cristã e que o seu mestre lhe ensinara a perdoar os inimigos e a os amar.

O perdão, de acordo com o exposto, é uma das mais sublimes manifestações do amor e não significa o esquecimento do mal praticado, mas não revidar o mal com o mal, não guardar ressentimentos com relação ao ofensor e não remoer os acontecimentos dolorosos. Nesse sentido, o perdão deve ser oferecido não apenas a outrem, como também a si mesmo, na forma do autoperdão, eliminando-se o sentimento de culpa do íntimo, dando-nos nova chance para a nossa reabilitação, de modo que o bem que façamos anule o equívoco que cometemos.

Em suas finais considerações, Divaldo afirmou que, mediante o autoconhecimento, consoante apregoado na resposta à pergunta de número 919 de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, é possível identificarmos os nossos pontos vulneráveis, as nossas fragilidades emocionais, e corrigi-las de pouco a pouco, para que as nossas imperfeições morais sejam convertidas em manifestações do amor e, assim, em nossa jornada, deixemos pegadas luminosas que apontem um caminho de felicidade para os que vêm atrás.

Texto: Júlio Zacarchenco
Fotos: Edgard e Sandra Patrocínio

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