28 abril 2017
28 abril 2017, Comentários 0

A cidade de São Paulo, na noite do dia 28 de abril de 2017, apresentava-se marcada pela garoa que a tipifica, fato que tornava a sensação térmica mais acentuada do que os 15° C. Todos os que podiam buscavam seus lares para se abrigarem do frio e da umidade, outros ainda deixavam a Capital Paulista para aproveitar, na praia ou no campo, o descanso propiciado pelos feriados prolongados. Naquele recanto da Metrópole, porém, uma verdadeira multidão apressava-se para se acomodar no auditório da Federação Espírita do Estado de São Paulo que se tornou pequeno para acomodar tantos interessados. Salas de apoio com telões foram disponibilizadas.

Cerca de 2.500 pessoas, com frio, mas movidas pela decisão de se aquecerem com a mensagem de amor, se juntaram expectantes e esperançosas para acompanhar a abertura do Congresso Espírita FEESP 2017 – com o tema O Grão de Mostarda –  realizada pelo tribuno Divaldo Franco

 

 

 

Assomando à tribuna Divaldo inicia sua abordagem apresentando Joseph Ernest Renan (1823-1892) escritor, filósofo, teólogo e historiador Francês que publicou em 1861 a Obra “A Vida de Jesus” livro no qual Renan não chama a atenção somente pela grandiosa e intensa pesquisa histórica nele envolvido, mas também pela maneira com que expõe a biografia de Jesus, apresentando, no transcurso da leitura, não o Jesus crucificado mas, o Jesus cheio de vida do Sermão da Montanha.

Em 1862 foi nomeado professor de hebraico no Collège de France, mas, após a primeira aula seu curso foi cancelado pelo Imperador Napoleão III, pela simples razão de ter chamado Jesus de “um homem incomparável”, pois ao considerar Jesus um homem contrariava os dogmas da religião que considera Jesus parte da Santíssima Trindade e a manifestação de Deus na Terra.

Anos mais tarde, foi Jesus – uma vez mais – trazido ao palco da literatura mundial sob a luz que lhe ampliava a mensagem de amor e de libertação. Era a vez do insigne escritor russo Leon Tolstoi (1828 —  1910) um dos grandes nomes da literatura russa do século XIX e que publicou os romances Guerra e Paz e Anna Karenina obras que o consagraram no meio literário mundial, mas que não conseguia, contudo preencher o vazio que ele sentia e em um gesto inesperado, abdicou de seus títulos e passou a viver de forma simples junto dos agricultores de sua antiga propriedade, levando
uma existência simples e em proximidade à natureza, pois buscava o Reino de Deus e Sua justiça.

Dessa experiência transcendental publicou em 1.894 aquela que lhe seria a grande obra de não ficção de Tolstói: O Reino de Deus Está em Vós, obra em que Tolstói defende a ideia de que o cristianismo não é uma doutrina abstrata, mas uma proposta prática para a vida.

À semelhança da ação de intolerância de Napoleão III na França em relação a Ernesto Renan, o livro gerou tanta polêmica que foi proibido pelo czar da Russia, e seu autor excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa e por essa razão foi publicado pela primeira vez na Alemanha, pois fora banido em seu país de origem, a Rússia.

Anos mais tarde esse livro foi lido por Mohandas Karamchand Gandhi (1869—1948) que viu confirmada pela atitude de Jesus que a libertação sem violência e derramamento de sangue era sim possível e nele encontrou a motivação para seguir sua missão e, pacificamente, libertou o povo da subjugação inglesa, utilizando-se da “Satyagraha” a política da Não-Violência.

Jesus é esse homem incomparável que os Espíritos Superiores que participaram da Codificação do Espiritismo afirmam ser Ele o Modelo e Guia enviado por Deus para auxiliar a Humanidade.

Divaldo, então, encanta-nos a todos com uma anamnese histórica do povo Israelita situando-nos no clima político, social, religioso e militar da época em que Jesus surge para iluminar – perenemente – a Humanidade. Divaldo foca as palavras de Jesus no Sermão da Montanha e nas Bem-aventuranças base dos ensinamentos do Mestre (“Se o Evangelho de Jesus é o coração da Bíblia, o Sermão da Montanha é a alma do Evangelho”. Huberto Rohden). Revelando a importância do Sermão da Montanha para a Humanidade, o Mahatma Gandhi afirmou: “Se se perdessem todos os livros sagrados da humanidade, e só se salvasse O Sermão da Montanha nada estaria perdido”.

É no evento das Bem-aventuranças que Jesus nos ilumina com as qualidades que devemos desenvolver para obtermos o Reino dos Céus: HUMILDADE (Bem-aventurados os humildes porque será deles o reino dos céus); MANSUETUDDE (Bem-aventurados os mansos porque eles herdarão a terra); MISERICÓRDIA (Bem-aventurados os misericordiosos porque obterão misericórdia); PAZ (não violência) (Bem-aventurados
os pacificadores porque eles serão chamados filhos de Deus); PUREZA DE CORAÇÃO (Bem-aventurados os puros de coração porque  eles verão a Deus) e o desenvolvimento da RESIGNAÇÃO (Bem-aventurados os que choram porque  serão consolados; Bem-aventurados os  que têm fome de justiça porque serão saciados; Bem-aventurados os perseguidos porque  será deles o Reino dos Céus).

Jesus vem nos falar de um sentimento antes nunca abordado pelos expoentes das diversas religiões: o AMOR.

Jesus vem nos apresentar a proposta superior para a vivência da vida em sua plenitude mediante a eleição de um propósito superior para a vida: Amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Podemos viver em harmonia apesar dos problemas que nos acontecem mediante a concentração de nossos esforços em torno de um objetivo existencial. Divaldo ilustrando a significação dessa atitude cita o exemplo de vida de Viktor E. Frankl, autor do livro Em Busca de Sentido e sobrevivente dos campos de extermínios nazista, que afirma: Tudo pode ser tirado de uma pessoa, exceto uma coisa: a liberdade de escolher sua atitude em qualquer circunstância da vida. Procure o seu objetivo psicológico, seja ele qual for.

As aflições sem tamanho que a Sociedade moderna defronta advém da adoção de objetivos imediatistas em detrimento de aspirações mais sublimes para a existência e reforçando a necessidade de elegermos um objetivo existencial Divaldo cita o pensamento do psicólogo existencialista norte americano Rollo Reece May, (1909 —1994) que afirma ter a sociedade elegida como parâmetros para a felicidade:

Individualismo: Doutrina moral  e social cujo conceito é o de valoriza a autonomia individual na busca da liberdade e satisfação das inclinações naturais e que se traduz na liberdade do indivíduo frente a um grupo, à sociedade ou às pessoas

Sexualismo: Comportamento ligado à sociedade mercantilista e consumista, na qual o ato sexual é priorizado e banalizado, desvirtuando sua razão natural.

Consumismo: Compulsão e modo de vida que leva o indivíduo a consumir de forma ilimitada bens, mercadorias e/ou serviços, em geral supérfluos, em razão do seu significado simbólico (prazer, sucesso, felicidade).

O Individualismo produz como uma das consequências o medo de amar uma vez que AMAR significa “aprisionar-se” conflitando com o conceito individualista de liberdade, mas que na realidade não passa de libertinagem.

Para emoldurar o conteúdo moral da conferência Divaldo encerra com a página do Espírito Irmão X e psicografada por Chico Xavier intitulada “No Caminho do Amor” (do livro Contos e Apólogos, Ed. FEB) que narra o encontro de uma vendedora de ilusões em Jerusalém, nos arredores do Templo  que ao deparar-se com um jovem Nazareno encantou-se e tomada de grande paixão e arrebatada na onda de simpatia a irradiar-se dele, acercou-se do desconhecido e convidou o viajante de tão longe para acompanhá-la até seu palácio.

Constrangido por aquele olhar esfogueado, o forasteiro – olhando-a com ternura inexcedível  -apenas murmurou:

– Agora, não. Depois, no entanto, quem sabe?!

A mulher sentindo-se desprezada retirou-se agastada.

Mais dois anos se passaram e de volta a Jerusalém Jesus vista um casebre onda jaz uma mulher devorada pela hanseníase.

Aproxima-se da enxerga onde a doente repousa às portas da morte e de braços estendidos, tocados de intraduzível ternura convidou:

— Vem a mim, tu que sofres! Na Casa de Meu Pai, nunca se extingue a esperança.

A infeliz reuniu todas as forças que lhe sobravam e perguntou, em voz reticenciosa e dorida:

— Tu, o Messias nazareno? O Profeta que cura, reanima e alivia?! Que viste fazer, junto de mulher tão miserável quanto eu?

Ele, contudo, sorriu benevolente, respondendo apenas:

— Agora, venho atender ao convite que outrora me fizeste.

Divaldo encerra com as recomendações finais. Hoje, nesses dias tão atormentados e atormentadores, devemos buscar Jesus, refletir sobre Suas palavras e vivenciá-los mantendo nossas mentes a Ele
vinculadas pelos pensamentos de teor elevado.

Busquemos encontrar um sentido psicológico para nossas existências, pratiquemos o bem.

Mesmo nesses dias difíceis deixemos brilhar a luz de Jesus a iluminar os nossos dias e todos os nossos momentos e optemos pela alegria de viver e, principalmente, de nos amarmo-nos a nós próprios.

Saiamos daqui com a certeza de que a vida é aquilo que dela fazemos.

As palmas que se seguiram ao poema da Gratidão traduziam o reconhecimento de todos pela mensagem de consolação e de esperança como luzes a balizar nossos passos nas sombras que buscam envolver a
humanidade nos dias atuais.

Um pensamento repercutia no recôndito das almas, luarizadas pelas bênçãos que a todos envolviam:

— Não vos deixarei órgãos. Voltarei para vós.

 

Fotos: Sandra Patrocinio
Texto: Djair de Souza Ribeiro

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