12 março 2016
12 março 2016, Comentários 0

6a. CONFERÊNCIA DA FEDERAÇÃO ESPÍRITA DA FLÓRIDA – 2016

“Desvelando A Morte, O Céu E O Inferno”

A Conferência da Federação Espírita da Flórida iniciou sua sexta edição no último sábado, 12 de março, tendo como sede a cidade de Orlando, no Estado da Flórida, EUA.

O evento ocorreu no “Darden Auditorium, com capacidade para 420 pessoas – totalmente esgotada-, que pertence ao campus da “University of Central Florida – Rosen College of Hospitality Management”.

No primeiro dia de atividades doutrinárias, o público, proveniente de diversas partes dos Estados Unidos e de outros países, pode acompanhar as palestras de Haroldo Dutra Dias, Daniel Assis e Divaldo Pereira Franco.

 

Abrindo os trabalhos pela manhã, o Dr. Haroldo Dutra Dias discorreu sobre o tema “Justiça Divina: O Código Penal da Vida Futura”, analisando o conteúdo da terceira parte do capítulo VII, da obra “O Céu e o Inferno”, de Allan Kardec. Fundamentado na proposição kardequiana que assevera que cada indivíduo receberá da vida os efeitos das próprias obras, seja na Terra como no mundo dos Espíritos, Dr. Haroldo discorreu sobre a imortalidade da alma, a lei de causa e efeito, a lei divina, as imperfeições morais como causa direta de nossos sofrimentos, a transformação moral dos indivíduos, o processo de reparação de nossos equívocos e de erradicação de nossas más inclinações.

Na sequência, Daniel Assisi falou sobre o tema “A Passagem”, embasado no capítulo I , da segunda parte da já citada obra “O Céu e o Inferno”, analisando, dentre outros tópicos, o processo de desencarnação, a percepção e as sensações de cada indivíduo na transição da vida física para a vida espiritual, as causas dos possíveis sofrimentos no passamento, a relação entre a conexão mais ou menos intensa do períspirito com o corpo físico e o processo de desencarnação e a influência do desenvolvimento moral do Espírito sobre o mesmo processo.

No período da tarde, Daniel Assisi proferiu a palestra: “O umbral é uma versão moderna do inferno?” O início de sua apresentação trouxe um estudo comparativo da compreensão do inferno pelas principais doutrinas filosóficas e religiosas ancestrais, demonstrando o quanto, de alguma forma, muitos de nós ainda estamos impregnados dessas ideias mitológicas. Em sua análise, esclareceu que, quase invariavelmente, as doutrinas que pregam a existência do inferno relacionam a presença de almas nesse ambiente com transgressões a leis divinas praticadas por aqueles indivíduos. Avançando em sua exposição, Daniel apresentou o conceito espírita de inferno, contido na obra “O Céu e o Inferno”, de Kardec, e de umbral, presente na obra “Nosso Lar”, do Espírito André Luiz, psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier. O umbral, segundo explicado, seria uma região destinada ao esgotamento de resíduos mentais deletérios, onde os Espíritos ainda perturbados permaneceriam até atingirem condições mínimas para habitarem esferas superiores. Seria, então, uma região meramente de transição, “habitat” temporário daqueles Espíritos, uma vez que a lei divina é de progresso para todos os seres. O ponto fundamental apresentado na conferência foi que o Espírito é dotado de inteligência e possui em si a lei divina a indicar-lhe o caminho da plenitude, sendo livre para realizar as próprias escolhas, com a obrigação de assumir a responsabilidade perante os seus atos, e com a possibilidade inesgotável de sempre refazer caminhos, adotar novas atitudes, no seu processo constante de aprendizagem e aperfeiçoamento intelecto-moral e espiritual.

A conferência de encerramento do sábado ficou a cargo do médium Divaldo Franco, que discorreu sobre o tema “O Céu Aqui, Agora e Amanhã”.

Sua apresentação partiu da análise que o codificador do Espiritismo, Allan Kardec, fez a respeito da criatura humana: sua origem, natureza e destinação após a morte física.

Considerando que a vida espiritual é um fato da Natureza, esclareceu que foi Kardec quem aprofundou as investigações científicas em torno da imortalidade do ser, apresentando o até então desconhecido mundo dos Espíritos, por meio das experiências mediúnicas, sem as fantasias, superstições e falsas ideias que existiam sobre o tema, isto é, desmistificando os conceitos de maravilhoso e sobrenatural, para revelar esse reino espiritual como uma das dimensões da realidade existencial pertencentes aos fenômenos naturais.

Seguindo com sua explicação, destacou que a vida do Espírito é una, tendo sido criado simples e sem conhecimento, para que adquirisse experiência, conhecimento e valores morais positivos por meio de esforços pessoais nas múltiplas reencarnações ( ou existências físicas sucessivas), utilizando-se, para isso, de diferentes corpos físicos, até que atinja a perfeição relativa a que todos estão destinados.

Tais experiências físicas seriam, então, fundamentais para fomentar o progresso do ser humano, como indivíduo e também coletivamente, não apenas através do aprendizado adquirido no enfrentamento das vicissitudes da vida, mas, ainda, pelo fato de poder concorrer para a obra geral do bem e, com isso, adiantar-se moral e espiritualmente.

Divaldo recordou-nos que as jornadas reencarnatórias para Espíritos que ainda não atingiram a perfeição são, normalmente, marcadas por dificuldades de variada ordem, alguns ou muitos deslizes morais, que acabam por gerar desequilíbrios psicológicos e energéticos no ser espiritual e comprometendo, em razão da lei de causa e efeito, o seu futuro.

Nesse ponto da conferência, foram abordadas as diferentes propostas filosóficas e religiosas sobre céu, inferno e purgatório, conforme constante da quarta obra da codificação espírita, “O Céu e o Inferno”, demonstrando-se que esses termos representam, em verdade, estados de consciência do ser humano, de equilíbrio ou desequilíbrio, de paz ou de tormento interior, de alegria ou de sofrimento, e não espaços geográficos.

Tomando como base de reflexão a proposta espírita sobre céu e inferno, o médium asseverou que cumpre-nos buscar a melhor forma de evitarmos os estados de consciência perturbadores e adquirirmos uma consciência pacificada e feliz e que isso somente seria possível mediante a vivência do Amor, consoante a mensagem contida no Evangelho de Jesus.

Referindo-se à obra “Jesus Psicoterapeuta”, da reconhecida psicóloga alemã Hanna Wolff, foi afirmado que ninguém nunca falou sobre o Amor como Jesus o ensinou e exemplificou, porque Ele estabeleceu a lei de Amor não como mera mensagem de cunho religioso, senão como verdadeira proposta psicoterapêutica de profundidade, capaz de sanar nossos desequilíbrios morais, psicológicos e espirituais mais graves.

Divaldo prosseguiu em suas considerações a respeito da inferioridade espiritual dos indivíduos que habitam a Terra, elucidando sobre a sombra que quase todos trazemos interiormente, dentro da concepção junguiana, e sobre o ego a sobrepor-se ao Self (ser profundo), sendo necessário iluminar o mundo íntimo com o conhecimento e a vivência das leis divinas, especialmente no que tange a experiência do autoperdão, que é uma das formas de manifestação do Amor.

Para ilustrar sua dissertação, o orador narrou a história de Ilse, uma senhora polonesa, sobrevivente do Holocausto, que foi paciente do psicanalista estadunidense Dr. James Hollis, e cujo caso foi descrito no livro “Os Pantanais da Alma”, de autoria do referido terapeuta. Essa senhora procurou o Dr. Hollis para uma única consulta, na qual apresentaria o seu drama, segundo ela mesma, não para que ele a orientasse ou tratasse, mas tão-somente para que fosse ouvida. Tendo-lhe enviado uma foto previamente à sessão, Ilse esclareceu-o quanto àquela imagem. Ela foi presa em sua cidade natal, na Polônia, e, embora cristã, foi levada para o campo nazista de Majdanek. Durante a separação dos presos, quando alguns seriam enviados para o grupo de trabalhos forçados e outros para a câmara de gás letal, avistou à sua frente uma mãe com duas crianças pequenas. Essa mãe fora selecionada para o primeiro grupo e as crianças, para a morte. Na sequência, Ilse foi também selecionada para o grupo de trabalhos forçados, mas o soldado impôs-lhe uma condição: conduzir as crianças até a câmara, o que fez. No exato momento em que assim procedia, alguém tirou uma foto , que somente muitos anos mais tarde, já vivendo nos EUA, ela teria oportunidade de vê-la, o que lhe traria de volta todo o conflito de culpa que havia conseguido abafar ao longo do tempo. Cerca de cinquenta anos depois do Holocausto, o seu “inferno” continuava a ser a memória daquilo que considerava ter sido uma covardia moral de sua parte; era a chamada síndrome do sobrevivente. Após mudar-se para os Estados Unidos, tentou ser judia, mas não adaptou-se à doutrina. Mesmo assim, manteve a lembrança de que, naquela cultura, dizia-se que alguém poderia libertar-se da culpa por misericórdia dos “céus”, caso 24 pessoas justas lhe ouvissem a história. Por isso, buscou o Dr. Hollis.

Divaldo também narrou uma vivência pessoal para mostrar o poder do perdão, do autoperdão e do Amor, descrevendo um processo de obsessão espiritual que sofreu por mais de 40 anos, resultado de um evento ocorrido em uma reencarnação remota, na qual seu comportamento teria magoado profundamente o Espírito que o perseguia nesta existência. Em determinada oportunidade, sentindo-se desdobrado do corpo físico, teve uma visão ideoplástica de Jesus, que o indagou se O amava realmente e pedindo-lhe o testemunho desse Amor por meio do perdão para aqueles que lhe tinham ofendido, para os que o estavam perseguindo, para aqueles que possivelmente o feririam e, por fim, para consigo mesmo. E assim procedendo, pode ele estabelecer novo estado de relação com o seu antigo adversário e consigo mesmo, alijando a culpa de si e experienciando, a partir de então, a paz interior.

Na conclusão de suas reflexões, Divaldo recordou-nos a mensagem intitulada “A Paciência”, contida na obra O Evangelho Segundo o Espiritismo, na qual diz-se que “a dor é uma bênção que Deus envia aos seus eleitos”, pois que as nossas dores têm causas justas, atuais ou anteriores a esta existência, geradas por nós mesmos, sendo a presente reencarnação a manifestação da misericórdia divina que nos facultou a possibilidade do recomeço para o devido trabalho de reequilíbrio de nosso mundo interior, a fim de que, pelo amor a Deus, ao próximo e a si mesmos, possamos alcançar nossa própria iluminação e vivermos em plenitude.

Após um intervalo para autógrafos, os palestrantes da tarde, Divaldo Franco e Daniel Assisi, retornaram para responder perguntas sobre os temas das conferências, destacando-se os esclarecimentos sobre abortamento, os casos atuais de microcefalia e evangelização espírita infanto-juvenil.

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